Resenha

[Resenha] Passarinha, de Kathryn Erskine

No mundo de Caitlin, tudo é preto e branco. Qualquer coisa entre um e outro dá uma baita 2sensação de recreio no estômago e a obriga a fazer bicho de pelúcia. É isso que seu irmão, Devon, sempre tentou explicar às pessoas. Mas agora, depois do dia em que a vida desmoronou, seu pai, devastado, chora muito sem saber ao certo como lidar com isso. Ela quer ajudar o pai – a si mesma e todos a sua volta -, mas, sendo uma menina de dez anos de idade, autista, portadora da Síndrome de Asperger, ela não sabe como captar o sentido. Caitlin, que não gosta de olhar para a pessoa nem que invadam seu espaço pessoal, se volta, então, para os livros e dicionários, que considera fáceis por estarem repletos de fatos, preto no branco. Após ler a definição da palavra desfecho, tem certeza de que é exatamente disso que ela e seu pai precisam. E Caitlin está determinada a consegui-lo. Seguindo o conselho do irmão, ela decide trabalhar nisso, o que a leva a descobrir que nem tudo é realmente preto e branco, afinal, o mundo é cheio de cores, confuso mas belo.

resenha

A melhor coincidência de todas talvez não seja mera coincidência. Meu segundo livro favorito, To Kill a Mockingbird, no Brasil intitulado “O Sol é Para Todos” (autora Harper Lee), inspirou Kathryn Erskine a escrever simplesmente uma obra prima.

Li o livro “Passarinha” em apenas uma tarde, não me recordo da primeira pessoa que me recomendou esse livro, mas agradeço muito a indicação.

Caitlin Smith é a menina maravilhosa, meiga, inteligente e fascinante, a narradora do livro que faz o leitor chorar, rir, gargalhar e emudecer lendo um mesmo parágrafo. Essa garotinha cheia de pensamentos confusos, perspicácia e praticidade, acaba por enxergar os acontecimentos à sua volta de um jeito preto e branco, prático e nada emotivo. Com apenas onze anos de idade, Caitlin perdeu seu irmão Devon para um massacre estúpido e cruel cometido na escola Virgina Dare (uma analogia ao massacre de Virginia Tech University, em 2007). Devon amava Caitlin de forma incondicional; ele era seu amigo, seu companheiro, seu mentor, aquele que melhor a compreendia. Na ausência da mãe (que falecera quando ela tinha três anos), e dependendo de um devastado e angustiado pai, Caitlin nos conta sua história de superação, tentativas e erros. Apesar de ser autista, ela não se reconhece como tal, e sob um olhar ingênuo, divertido e cheio de confusões, Caitlin fará o leitor enxergá-la exatamente como um passarinho: livre, delicado, e destinado a grandes voos.

Esse é o meu ponto de vista sobre o livro, uma visão adulta e incolor.

Vou colacionar a melhor história, aquela contada sob o ponto de vista de Caitlin:

“A cabeça da Sra. Brook se abaixa e ela fecha as mãos em punhos.

– Pode ser difícil, mas eu vou ajudar você.

Ela Olha Para A Pessoa.

– Vamos pensar nas crianças da sua turma.

Olho para o Quadro de Expressões Faciais. Então começo a fazer bicho de pelúcia com ele.

– Está pensando?

– Já pensei.

– Em quem você pensou?

Estou pensando nas pessoas que sorriem muito. Isso deveria querer dizer felizes e legais e amigas. E quais pessoas têm rostos bravos ou choram muito porque isso quer dizer que estão tristes. Ou zangadas. Ou assustadas.

– Ou às vezes até mesmo felizes e apenas se sentindo emocionadas – diz a Sra. Brook.

– Está vendo? E por isso que as emoções são más e eu tenho horror a elas! Principalmente chorar. Eu não Capto O Sentido.

– Rir é mais fácil de entender, diz ela. Geralmente mostra que a pessoa está feliz.

– Nem sempre. Às vezes mostra que a pessoa está sendo cruel.

E verdade, se alguém provoca uma pessoa ou debocha dela.

– QUANDO e não SE, digo a ela.”

Quando Caitlin nos conta que alguém está olhando para ela, utiliza a expressão “A Pessoa”. E ao contrário do que se imagina, essa referência nos faz sorrir, porque não significa que ela esteja confusa ou equivocada; é apenas mais um ponto de vista prático e simples dessa garotinha cheia de opinião. Identificar emoções e captar o sentido é muito complicado mesmo, concordo com você Caitlin, então recorrer ou lembrar-se do quadro de emoções é mais fácil e quase sempre funciona.

“O pescoço dela se estica e recua feito o de uma tartaruga e ela diz com uma Voz Boazinha, – Ele não se conforma por ter perdido Devon.

Ah. PerDER é uma palavra estranha. Já olhou no Dicionário? Tem perDER do tipo perDER os óculos que é quando uma coisa desaparece. Tem perDER do tipo perDER o ônibus se você não se apressar porque tem que pisar em todas as rachaduras na calçada antes de chegar até ele. E tem perDER querendo dizer que um parente morreu.

– Você lamenta ter perdido Devon?

– Não sei.”

O dicionário e livros em geral são os grandes aliados de Caitlin para entender essa vida maluca e caótica. Sob o singelo ponto de vista dela, tudo deveria ter seu significado registrado nos livros e sem muitas cores ou barulho, apenas preto e branco. Daquilo que lê, algumas coisas são fáceis de entender, outras nem tanto. Afinal, como compreender claramente alguém que entra em uma escola, ameaça, aterroriza, assassina seu querido irmão Devon, para então ser morto pela polícia? Sim Claitlin, algumas coisas são muito confusas mesmo.

“Ele olha para ela por um momento e então a apanha mas não a põe na boca.

– Não é uma minhoca de verdade, explico. É para comer.

Nem assim ele a come e estou quase pedindo-a de volta já que ele não vai comê-la quando então ele diz, – Obrigado.

Acho que agora não posso pegá-la de volta. Ele a põe na boca e uma parte dela fica pendurada para fora enquanto mastiga. Por fim a minhoca desaparece.

– Estou com saudade dela, diz.

– Da minhoca Laurie? – Ele faz que não.

– Da minha mãe.

Ah. Ele vira a cabeça para me olhar e chega mais perto mas não invade meu Espaço Pessoal. Tento olhar nos olhos dele. E quando faço isso tenho uma surpresa. São como os olhos de Bambi. São simples. Como os olhos no Quadro de Expressões Faciais e ficam parados por isso posso ver o que têm dentro.”

E por fim o grande amigo e divisor de águas da história de Caitlin, um garotinho chamado Michael, que despertou em Caitlin um calorzinho gostoso no coração; o filho da professora morta na mesma tragédia que vitimou o irmão de Caitlin.

Viram? Como eu disse, existem coincidências que não são meras coincidências. E assim como Caitlin procura um Desfecho para o sentimento que não consegue processar, e… ah, eu não posso contar o resto, vou dar um desfecho para essa resenha me reportando a Caitlin, que para mim despertou muito mais que um calor no coração; ela é a personificação da bondade sincera, da alma mais pura, do humor inteligente, da bondade que cura.

“Passarinha” possui 224 páginas, diagramação e tradução, como sempre, perfeitos. Parabéns à Editora Valentina pelo trabalho impecável na confecção do livro, assim como na escolha da capa, que reproduz com sensibilidade o momento vivido pela protagonista (gostei muito mais do que as capas estrangeiras).

Embora de leitura fácil e rápida, não se engane leitor: esse é um livro MUITO MAIOR DO QUE VOCÊ VÊ!

Imagem 01 - Post Passarinha 02-04-14

Sobre o autor

KEComo residente do estado da Virgínia, Kathryn Erskine ficou profundamente abalada com o massacre da Virgínia Tech University, em 2007. Na esteira da tragédia, Kathryn imaginou como poderia entrelaçar o tema da violência na juventude, seu impacto sobre a comunidade e as famílias, e o mundo de uma criança com necessidades especiais, numa tentativa de avaliar o quanto nossas vidas poderiam ser diferentes se compreendêssemos melhor uns aos outros. Ao escrever Passarinha, que narra a história de uma menina autista, ela própria penetrou nesse delicado universo para, como Caitlin, nos oferecer algo bom e forte e bonito. Kathryn exerceu a advocacia durante quinze anos antes de se voltar para seu primeiro amor, a literatura. Vive com o marido, dois filhos e uma cachorrinha chamada Maxine. A obra de Erskine aferiu os seguintes prêmios: VENCEDOR do National Book Award, 2010 / FINALISTA do Redbridge Childrens Book Award (Reino Unido), 2012 / FINALISTA do UKLA Award (Associação Literária do Reino Unido), 2012 / VENCEDOR do International Reading Association Award, 2011 / VENCEDOR do Crystal Kite Award, 2011 / HONRA AO MÉRITO do Golden Kite Award, 2011 / VENCEDOR do Southern Independent Booksellers Award, 2011 / OBRA NOTÁVEL PARA CRIANÇAS da American Library Association’s (ALA), 2011 / MELHOR ROMANCE PARA JOVENS da American Library Association’s (ALA), 2011 / OBRA EXTRAORDINÁRIA no Bank Street Best ChildrensBooks,2011 / OBRA NOTÁVEL PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES, Capitol Choices, 2011 / VENCEDOR do Dolly Gray Children’s Literature Award, 2012 / ELEITO PARA O “100 LIVROS PARA LER E COMPARTILHAR”, da Biblioteca Pública de Nova York (Literatura Infanto-juvenil), 2010 / Júnior Library Guild Selection, 2010

SA

 

2 comentários em “[Resenha] Passarinha, de Kathryn Erskine

  1. Parece ser no mínimo sensacional e muito tocante. Acho incrível todo esse universo do autismo, ainda é um mundo o qual não sabemos 100% das coisas, nos surpreendemos a cada momento… Junto com isso tem também a história de vida da menina… perdeu o irmão (pessoa mais próxima a ela), a mãe (logo quando era pequena).. deve ser muito emocionante o livro! Uma ótima opção de leitura, para qualquer idade!

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